Família

Francisca

13 de Setembro 2020

13 de Setembro 2020 8 horas da manhã. É um Domingo. Tem café e bolo de fubá na mesinha da varanda.


Comecei a trabalhar com 7 anos. Fazia tudo. Tudo. Plantar, limpar, colher, carregar madeira pra Pai fazer cerca. Sabe Deus o que foi que a gente passou. A gente era escravo.

Isso porque meu pai era professor de matemática. E dava aula na região toda. Todo mundo vinha estuda na casa velha de meu avô. Casa enorme. Tinha nove quartos. No escuro. Três turnos. Manhã, tarde, e noite.

Tinha o trabalho de roça. Ele fiscalizava. Ele não pegava no pesado, ele só fiscalizava. Depois pegou a fazenda da minha tia que era enorme, pra administrar. Meu pai trabalhou até, coitadinho, até quando deu. Viveu noventa e seis anos.

Ah de noite, mas era um cansaço. Oxi. Vinham os carros de madeira despejava tudo, ai ele mandava carregar de um canto pra outro. E um ano, que ele plantou uma fazenda inteira de não sei quantos hectares… coisa… légua ai… de abóbora. As abóboras desse tamanho! Pra nós descarregar. Eu, Francisco e Astério. Quase nós morre.

4 horas ele levantava e não ficava ninguém deitado. Ninguém.

E quando era na sexta-feira que ele tinha uma tal de uma oração que fazia de madrugada e fazia a gente ficar acordado? Eita raiva. Vontade de quebrar aqueles santo tudo. Nunca gostei daquele santo.

Dormia seis horas. Seis e meia tava todo mundo dormindo. Não tinha nada pra fazer, escuro lá fora.

Carregava água na cabeça. Tinha água encanada não. Ia buscar lá na fonte. Uns potes desse tamanho! Quebrava tudo a coluna. E lavava a roupa da casa. Quem lavava era eu e Alzira. Se viesse manchadinha ou qualquer coisa ia bota de novo na bacia e levar de novo pra fonte pra lavar de novo. Tem as pedras pra bater. Ô meu filho, sabe de nada não. Só a misericórdia de Jesus.

Tem umas coisas que não é tão pesada. É que meu pai maltratava a gente mesmo, de trabalho.

Eles iam pras festas. Ele, mãe, e minha irmã mais velha sempre ia com eles. E Eu, Francisco, Astério, e Alzira nós ficava trancado. Trancado! E morrendo de medo. Eita mas era um medo. Alzira medrosa até hoje. Mas faziam medo à gente. Um dia me botaram dentro de um saco. Um véio que chamava Virgílio lá. Me levou até lá nos tamarindos. Diz que ia me matar, é o que eu pensava. Me levou até lá e tirou do saco e eu vim correndo pra casa chorando. O cabelo batia aqui.

Depois a gente cresceu e nós dava cada baile nele que ele nem sabe. Nós ia até nas festa, dançava até de madrugada aí vinha embora pra casa, quietinho, todo mundo amanhecia deitado. Uma vez eu fui num casamento mais ele, no outro lado do rio, numa cidade lá. Ai quando nós chegamos Francisco tava dormindo encostado na cerca do curral. Foi tirar o leite e pegou no sono. Tinha ido pra festa mais Alzira. “Esse corno, que é que você tá fazendo aí dormindo!” Eita bexiga.

Batia. Nos meninos ele batia. Eu e Alzira nunca apanhamos não.


Sem nenhuma palavra levantou, pegou as xícaras e pratos e foi lavar a louça.

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