Família

Maria Cristina

12 de Setembro 2026

Uma lembrança é o encontro deles na cozinha. O pai chegava, aí a mãe tava na cozinha e toda vez que ele chegava, passava a mão no cabelo dela assim (levando carinhosamente o cabelo para o lado). Ela falava "deixa de ser besta" mas não brava, era charme. Eu tenho muita lembrança disso.

Com a mãe, quando eu fiquei meses passando mal tratando de uma gastrite, e a "gastrite" na verdade era a Marta. Fiz o exame e veio a moça e falou "olha, não tem problema de estômago, ela tá grávida". Eu fiquei espantada, aí a mãe olhou bem dentro do meu olho e falou assim "você não foi a primeira e você não vai ser a última. Se ajeita, bora pra casa".

São tantas coisas do pai, eu acho que o mais emblemático foi quando a mãe numa das vezes que queria me disciplinar pediu pra ele me bater. Ficou aquela situação, ele falou "vá pro quarto". Eu cheguei lá, ele fechou a porta, olhou pra mim e falou assim "você chore, você grite viu! Que sua mãe vai pegar eu e você se eu não fizer o que eu tenho que fazer aqui". Ele deu umas cintadas na cama e eu atuei maravilhosamente bem. "E não saia daí não! Só saia quando sua mãe mandar você sair daí". Eu desafiava a mãe porque eu era protegida do pai. Eu apanhei bastante da dona Francisca mas ela tinha os motivos dela. Às vezes eu achava que era exagero mas paciência.

Ele era autêntico. Ele não era uma pessoa dentro de casa e outra fora. Sempre aquela coisinha. A minha referência de casal eram os dois. Ele trabalhando à noite e a gente durante o dia todo mundo ficando quieto pra ele poder descansar. E a mãe, o zelo da mãe era assim "O seu pai tá dormindo, pra lá então". O cuidado dos dois, ele era muito carinhoso com a mãe. Ele sempre foi muito carinhoso com ela, sempre demonstrou aquele amor aquela paixão que ele tinha por ela e a mãe, toda manhosinha. Ela cuidava dele do jeito dela.

A primeira cirurgia dele foi um terror pra gente. Imaginar que ele ele podia morrer, meu deus do céu. Ele era novo. Acho que tinha uns 40 anos. Acho que o pai operou três vezes se eu não estiver enganada.

O pai tinha uma coisa ali não reclamava. O negócio tava sério sinistro e ele não reclamava. Muito lindo. Tanto que eu acho que é coisa pior na vida dele que aconteceu foi a morte do Jean. Eu nunca vi o pai tão triste. Aí eu lembro dele chegando com a pastinha dele, nunca tinha visto ele tão triste daquele jeito. E ele ficou mudo. Ele não reclamou. A reação dele foi o silêncio. Porque ele sempre tinha uma palavra de ânimo de motivação de incentivo de tudo isso. Então acho que quando a hora que doeu que rasgou o coração dele ele silenciou.

Eu lembro da gente bem pequenininho eu a Helena numa casa na zona norte ou zona sul. A gente tudo num quartinho tinhamos acabado de mudar, sem colchão dormindo no estrado com as cobertas dobradas. Mas assim, eu lembro disso como se fosse uma coisa boa. Porque meu pai, minha mãe, minha irmã, e meus irmãos estavam ali. Todo mundo junto. Eles traziam essa segurança pra gente ainda que a gente não entendesse o que devia ser ali uma situação financeira muito crítica, mas eles não passavam essa necessidade, esse temor.

Outra história é uma história muito forte. Eu chegando da escola um dia mais cedo e eles estavam lá "coisando". Eu não tenho nenhum trauma com isso mas eles nunca falaram sobre, nem o pai nem a mãe, é como se não tivesse acontecido.

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